Por Gonçalo Martins – CEO Atlantic Books
“Uma maior proximidade entre editoras e gráficas é essencial”
Enquanto empresário do ramo editorial, proprietário de um grupo editorial com gráfica própria e livraria, é hoje evidente que a impressão atravessa um dos momentos mais exigentes da sua história recente. Não se trata apenas de uma crise conjuntural, mas de uma transformação estrutural profunda, que obriga todos os intervenientes, sejam eles marcas, editoras, gráficas, designers ou fornecedores, a repensarem práticas que durante décadas pareceram estáveis e imutáveis.
Entre os principais riscos, destaca-se desde logo a redução significativa das tiragens médias, consequência direta da fragmentação do consumo cultural e da crescente pressão financeira sobre os projetos editoriais. Esta realidade obriga a decisões cada vez mais cautelosas, onde o erro de planeamento tem impactos imediatos em tesouraria, stock e sustentabilidade. O livro impresso continua a ser central, mas deixou de permitir margens de erro que durante muitos anos foram absorvidas pelo sistema.
A este contexto soma-se a instabilidade do custo do papel, a crescente dificuldade de planeamento industrial e de capacidade produtiva e a dependência de equipamentos tecnologicamente complexos, nem sempre acompanhados por níveis de assistência técnica compatíveis com a criticidade que hoje assumem na operação. A pressão permanente entre preço, qualidade e prazos cria um ambiente de fricção constante, desgastando relações históricas na cadeia de valor da impressão e dificultando a construção de parcerias duradouras.
É também importante reconhecer que a discussão em torno do digital tem sido, muitas vezes, excessivamente simplificada. O digital alterou hábitos, expectativas e ciclos de consumo, mas não eliminou a relevância da impressão. O verdadeiro problema surge quando se insiste em responder a um novo contexto com modelos de decisão, produção e negociação herdados de outra realidade económica. A maior ameaça à impressão não é o digital, mas a inércia e a incapacidade de adaptação.
Do ponto de vista editorial, imprimir deixou de ser um automatismo e passou a ser uma escolha consciente. Cada projeto exige hoje uma reflexão rigorosa sobre expectativas editoriais e de mercado, formato, tiragem, tecnologia de impressão e custo real de stock. Offset e digital não devem ser vistos como soluções concorrentes, mas como ferramentas complementares, a utilizar com critério, flexibilidade e inteligência económica, em função do ciclo de vida e do posicionamento de cada obra.
Vejo como essencial, a curto e médio prazo, uma maior proximidade entre editoras e gráficas. Esta aproximação implica uma mudança cultural, onde a lógica puramente transacional dá lugar a uma lógica de parceria estratégica, baseada em planeamento conjunto, previsibilidade de custos, partilha de informação e compromisso mútuo. A sustentabilidade do setor não será alcançada através de cortes cegos de margem nem de uma competição de preços que fragiliza todos os operadores, mas antes pela criação de valor, assente na qualidade, diferenciação, especialização e foco em segmentos onde a impressão continua e continuará a fazer sentido.
Acredito que a impressão continuará a desempenhar um papel relevante no futuro, não por tradição ou nostalgia, mas porque continuará a acrescentar valor enquanto for pensada de forma estratégica. Existirá onde houver clareza de propósito, rigor económico e capacidade de adaptação. Em última instância, o futuro da impressão não será determinado pelas máquinas disponíveis ou pela escala instalada, mas pelas decisões estratégicas, pela criação de valor e pela coragem de mudar num contexto que já mudou.
